REFLEXÃO CRÍTICA
- dara-2405
- 15 de jan.
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Introdução
Este projeto de prática como pesquisa investiga como a respiração, a voz e a identidade linguística podem ser mobilizadas como material cinematográfico para explorar as dimensões emocionais e corporificadas da comunicação. O curta-metragem Breath (2025) surgiu por meio de um processo iterativo que examinou como o som não verbal, a fala fragmentada e o ato físico de respirar podem revelar estados internos que extrapolam o significado linguístico.
Embora o projeto tenha se iniciado a partir de um interesse abstrato na respiração como ritmo cinematográfico, ele evoluiu, por meio de entrevistas, ensaios, exercícios sensoriais e desafios de produção, para uma investigação mais profunda sobre identidade multilíngue, afeto, vulnerabilidade e mal-entendidos entre falantes de diferentes línguas maternas. Esta reflexão crítica apresenta as questões de pesquisa do projeto, seu enquadramento contextual, metodologia, reflexões sobre o processo de produção, principais achados e sua contribuição para a prática do cinema experimental.
Questões de Pesquisa
A investigação foi orientada por duas questões centrais:
Como a respiração pode funcionar como uma linguagem cinematográfica capaz de expressar lacunas comunicativas, estados emocionais e conexões intersubjetivas?
Como o ato de falar em diferentes línguas maternas revela dimensões afetivas, sonoras e rítmicas da identidade que ultrapassam o significado semântico?
Ao longo do processo, surgiram questões secundárias:
Que formas de comunicação emergem quando dois interlocutores utilizam apenas suas línguas maternas, sem buscar a compreensão semântica?
O som, em seu ritmo, tom, textura e respiração, pode se tornar o principal espaço de sintonia interpessoal?
Contextualização
O projeto se posiciona dentro da linhagem da etnografia sensorial, em especial a partir do trabalho desenvolvido pelo Sensory Ethnography Lab (SEL) da Universidade de Harvard. Filmes como Sweetgrass (Castaing-Taylor & Barbash, 2009), Leviathan (Castaing-Taylor & Paravel, 2012) e Manakamana (Spray & Velez, 2013) rejeitam a narração explicativa e a exposição didática, privilegiando a imersão, a corporificação e a atenção às texturas sensoriais. A produção teórica associada ao SEL enfatiza a noção de “capacidade negativa” (negative capability), derivada de Keats, sustentando a incerteza em vez de resolvê-la. Essas práticas informaram diretamente Breath, especialmente em sua ênfase nos microrritmos, na expressão não verbal e na recusa em traduzir ou explicar os acontecimentos.
O projeto também dialoga com o documentário poético e o cinema de vanguarda. O enquadramento duracional de Chantal Akerman, o uso característico da respiração e da imobilidade nos filmes de Tsai Ming-Liang (Tsai, 2013) e os close-ups fenomenológicos de Stan Brakhage (Brakhage, 1971) influenciaram a estética minimalista e íntima do filme. Essas referências sustentaram a decisão de evitar o fechamento narrativo e de priorizar a experiência sensorial em detrimento do significado convencional.
A teoria sonora fundamental de Michel Chion em Audio-Vision (1994) forneceu um arcabouço conceitual central para o projeto. A respiração foi tratada como um som acusmático, íntimo, mas nem sempre ancorado visualmente. O conceito de synchresis, definido por Chion como a soldagem perceptiva entre som e imagem, orientou estratégias de montagem que justapunham respirações e rostos desencontrados, produzindo uma coerência afetiva em vez de literal. A noção de Adam Basanta sobre diferentes “tons” ou “camadas” de relação audiovisual reforçou essa abordagem.
Além disso, o projeto se articula com a fenomenologia e com teorias da espectatorialidade corporificada, buscando não apenas representar a respiração, mas provocar no espectador um espelhamento interno de seu ritmo. Estudos sobre migração e sociolinguística, em especial o trabalho de Kerswill (2006) sobre corporificação linguística e o trabalho emocional envolvido no uso de uma segunda língua, ofereceram um enquadramento teórico para os relatos dos participantes sobre conforto, estranhamento e identidade em contextos multilíngues.
Metodologia
A pesquisa seguiu uma metodologia de prática como pesquisa (practice-as-research), utilizando técnicas cinematográficas experimentais para investigar som, corporeidade e comunicação interpessoal. Macro close-ups da respiração, dos lábios, da tensão na garganta e de microgestos enquadraram o corpo como principal ferramenta expressiva. A estética em preto e branco enfatizou contraste, textura e ritmo, eliminando a cor para destacar as qualidades sensoriais da imagem. O som orientou toda a investigação: sessões isoladas de respiração, repetições, erros de pronúncia e expressões nas línguas maternas foram gravadas como eventos sonoros, e não como conteúdo linguístico. Entrevistas que abordavam sons difíceis em inglês, emoções intraduzíveis e percepções de identidade linguística informaram o direcionamento conceitual do projeto.
Seguindo a sugestão do professor, as duas participantes, Ana (português) e Nell (francês), foram convidadas a se comunicar exclusivamente em suas línguas maternas. A interação entre elas foi conduzida a partir de métodos psicodramáticos derivados do meu próprio estudo e da minha prática de direção de atores através do psicodrama, conforme desenvolvido em Direção de Atores com Psicodrama (Oliver Andia, 2025). Nesse referencial, o diretor cria um ambiente em que a verdade emocional emerge pela ação, e não pela performance, princípio fundamentado na ênfase do psicodrama na espontaneidade, na memória incorporada e no encontro relacional.
Em vez de interpretar papéis ou responder a perguntas formais de entrevista, Ana e Nell participaram de exercícios guiados concebidos para ativar presença, vulnerabilidade e dinâmicas relacionais autênticas. Esses exercícios incluíram respirar juntas, espelhar os gestos uma da outra, ensinar e tentar produzir sons desconhecidos de suas línguas, repetir frases de forma incorreta e articular emoções que não conseguiam expressar facilmente em inglês. Tais técnicas dialogam diretamente com práticas centrais do psicodrama, revivência (reexperiência vivida), ação como transformação e espontaneidade criadora, que enfatizam o surgimento da verdade por meio da interação corporal, e não da explicação verbal.
Nesse contexto, os exercícios não tinham caráter terapêutico, mas artístico: eles criaram um campo relacional estruturado e, ao mesmo tempo, aberto, no qual ambas as participantes puderam oscilar entre autoconsciência e presença compartilhada. O objetivo não era “extrair” emoção, mas criar condições para que reações genuínas, hesitação, riso, tensão e liberação, emergissem de forma natural. Essa abordagem está alinhada à minha filosofia psicodramática mais ampla, segundo a qual dirigir atores não significa manipular emoções, mas estabelecer um ambiente seguro e ético no qual a verdade incorporada se torna acessível à câmera.
O resultado foi uma interação moldada não por convenções performáticas, mas por respostas vividas, tornando o material registrado mais rico, íntimo e coerente com a investigação do projeto sobre respiração, linguagem e comunicação incorporada. A metodologia, portanto, priorizou a presença relacional em detrimento da performance roteirizada, permitindo que o sentido emergisse da respiração, da hesitação, do humor e das negociações sutis que acontecem quando duas pessoas se encontram através de uma distância linguística.
Reflexão sobre a Produção & Avaliação Crítica
O projeto inicialmente abordou a respiração como um ritmo cinematográfico puramente abstrato. Os primeiros testes visuais enfatizavam close-ups fragmentados, camadas de ruído urbano e balbucios ininteligíveis. No entanto, à medida que as entrevistas se acumularam, o centro conceitual do projeto se deslocou. As participantes compartilharam reflexões íntimas sobre identidade linguística, memória, desconforto e humor relacionados ao uso do inglês. Esses depoimentos ampliaram o escopo temático do trabalho, aproximando-o de um híbrido entre documentário e poesia.
A primeira gravação principal gerou material visualmente forte, mas sofreu com problemas técnicos graves no som. Dada a centralidade da respiração, essa falha exigiu uma recalibração metodológica. A regravação incorporou exercícios psicodramáticos, resultando em ritmos emocionais mais ricos e interações mais autênticas. A utilização de duas câmeras possibilitou a captura simultânea das reações de ambas as participantes, aprofundando a dimensão relacional.
Nenhuma das participantes tinha experiência prévia em atuação. Ferramentas psicodramáticas como respiração guiada, espelhamento e repetição favoreceram estados de presença em vez de performance. O uso exclusivo do português e do francês desbloqueou espontaneidade e vulnerabilidade, permitindo que a comunicação se desse por meio do ritmo, do tom e do gesto, e não por significados compartilhados.
O filme final assume a imersão sensorial e a abstração como escolhas estéticas centrais. Seus pontos fortes incluem a textura das imagens, o desenho de som intimista e uma estrutura poética alinhada às questões de pesquisa. No entanto, parte da complexidade temática permanece implícita, e a forma abstrata pode dificultar a acessibilidade para alguns espectadores. Iterações futuras poderiam aprofundar ainda mais a dinâmica intersubjetiva entre as participantes e expandir o espectro linguístico explorado.
Discussão dos Resultados
Ao longo do projeto, a respiração emergiu como uma ferramenta expressiva não verbal central, capaz de comunicar tensão, hesitação, antecipação, vulnerabilidade e liberação de formas que a linguagem falada não alcança. Um momento particularmente significativo ocorreu quando Ana e Nell começaram a sincronizar suas respirações espontaneamente, sem qualquer instrução. Esse instante funcionou como uma poderosa articulação cinematográfica de conexão para além da compreensão semântica, oferecendo uma demonstração visceral de sintonia intersubjetiva. A cena sustenta a hipótese central do projeto de que a respiração pode operar como uma linguagem cinematográfica primária, comunicando sentido afetivo diretamente através do corpo.
O projeto também revelou que a língua materna é inseparável da identidade emocional. Ao falar português ou francês, as participantes acessaram registros emocionais e sensoriais associados a conforto, humor, memória e autenticidade. A postura corporal se suavizava, os padrões respiratórios se estabilizavam e a fala fluía com maior confiança rítmica. Em contraste, o uso do inglês introduzia esforço visível, autovigilância e momentos de distanciamento emocional. As participantes frequentemente pausavam para buscar palavras, ajustavam inconscientemente a respiração ou riam de forma nervosa diante de erros de pronúncia.
Essas observações dialogam fortemente com o trabalho de Kerswill (2006) sobre migração e incorporação linguística, que argumenta que o uso de uma segunda língua altera não apenas a comunicação, mas também a relação afetiva com o próprio eu. O material fílmico confirma que a respiração e a textura vocal frequentemente revelam mais sobre identidade do que o significado lexical isolado, sugerindo que a linguagem é incorporada não apenas na sintaxe e no vocabulário, mas também no ritmo, no controle respiratório e na presença sonora.
Contrariando expectativas iniciais, a restrição de que as participantes falassem apenas suas línguas maternas não levou ao colapso da comunicação. Pelo contrário, a comunicação se transformou em outra modalidade. Sem compreensão semântica compartilhada, tom, ritmo, respiração, gesto, expressão facial e contato visual tornaram-se os principais canais de troca. Um campo afetivo comum emergiu, moldado pela atenção e pela responsividade mútua, e não pela tradução.
Nesse contexto, a incompreensão tornou-se produtiva, e não um obstáculo. O sentido emergiu da materialidade sonora e de pistas perceptivas, em consonância com o conceito de sincrese de Chion (1994), no qual som e imagem se fundem afetivamente, e com a compreensão ampliada de Basanta sobre a vinculação perceptiva para além da clareza semântica. A ausência de tradução abriu espaço para a ambiguidade, permitindo que o som operasse de maneira poética, e não informativa.
O uso de métodos psicodramáticos mostrou-se essencial para viabilizar esses resultados. Exercícios como espelhamento da respiração, ensino de sons desconhecidos, repetição incorreta de frases e permanência em momentos de não compreensão estimularam vulnerabilidade, ludicidade e presença incorporada. Essas atividades romperam hábitos performáticos e reduziram a pressão por “acerto” linguístico, permitindo respostas mais intuitivas. Momentos de riso, tensão, hesitação e sintonia emocional emergiram organicamente, produzindo um material com profundidade e imediatismo raramente alcançados por técnicas tradicionais de entrevista. Como resultado, a textura emocional do filme se ancora não na explicação ou na clareza narrativa, mas na interação vivida e incorporada, reforçando o compromisso do projeto com a respiração, o som e a presença relacional como materiais cinematográficos primários.
Conclusão
Breath demonstra que respiração, voz e textura sonora oferecem ferramentas potentes para explorar lacunas de comunicação, vulnerabilidade e identidade emocional. Ao integrar cinema experimental, direção psicodramática e etnografia sensorial, o projeto revela que a comunicação não emerge exclusivamente do significado linguístico, mas do ritmo incorporado e da sintonia relacional.
Pesquisas futuras poderiam ampliar a diversidade linguística dos participantes, explorar a sincronização respiratória em grupo, experimentar formatos de instalação multicanal (como nos trabalhos expositivos do SEL) ou aprofundar o diálogo com teorias do som pós-humanas e chionianas. Em última instância, o projeto confirma que a fronteira entre linguagem e respiração constitui um território fértil para investigação sensorial e expressão poética.
BIBLIOGRAPHY
Basanta, A. (2012) ‘Shades of Synchresis: A Proposed Framework for the Classification of Audiovisual Relations in Sound-and-Light Media Installations’, Electroacoustic Music Studies Conference (EMS).
Brakhage, S. (1971) ‘In Defense of Amateur’, University of Colorado Boulder.
Chion, M. (1994) Audio-Vision: Sound on Screen. Translated by C. Gorbman. New York: Columbia University Press.
Kerswill, P. (2006) Migration and Language. Bergen: University of Bergen.
Oliver Andia, D. (2025) Direção de Atores com Psicodrama.
Tsai Ming-Liang (2013) ‘Interview with Tsai Ming-Liang’
FILMOGRAPHY
Breath (2025) Directed by Oliver Andia, D. and Arshad. UK.
Leviathan (2012) Directed by Castaing-Taylor, L. and Paravel, V. USA/France/UK: Cinema Guild.
Manakamana (2013) Directed by Spray, S. and Velez, P. USA/Nepal: Cinema Guild.
Sweetgrass (2009) Directed by Castaing-Taylor, L. and Barbash, I. USA: Cinema Guild.



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