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Da Ironia à Crise Narrativa: Uma Análise Crítica


O artigo de Frida Beckman, “From Irony to Narrative Crisis: Reconsidering the Femme Fatale in the Films of David Lynch” (2012), examina como uma figura cinematográfica consagrada se transforma ao longo do tempo. Beckman explica que a femme fatale, antes controlada por regras patriarcais no cinema clássico de Hollywood, é transformada nos filmes de Lynch por meio de narrativas não lineares e do que Gilles Deleuze (1989) descreve como a imagem-tempo. Em Blue Velvet (1986), Lost Highway (1997) e Mulholland Drive (2001), Beckman sugere que a femme fatale deixa de ser apenas uma figura misteriosa a ser desvelada e punida, passando a adquirir novas possibilidades (Beckman, 2012, p. 27).

Beckman dialoga com debates persistentes sobre cinema feminista ao construir seu arcabouço analítico. Críticas como Mary Ann Doane (1991) e E. Ann Kaplan (1998) argumentam que a femme fatale simboliza o esforço do cinema em conter a sexualidade feminina. Janey Place (1980), por outro lado, destaca sua influência ambígua e complexa. Lynch frequentemente é acusado de misoginia devido à violência infligida às personagens femininas (Dixon, 1998), enquanto Martha Nochimson (1997) considera que seus clichês possuem impacto crítico. O artigo avalia de forma rigorosa a questão central de Beckman, seus métodos, fundamentos teóricos, bem como as virtudes, limitações e possibilidades futuras de seu trabalho.

Beckman (2012, p. 26) questiona como as estruturas narrativas complexas de Lynch e suas representações do tempo transformam a imagem tradicional da femme fatale. Ela contrasta as narrativas fragmentadas de Lynch com a estrutura clássica do film noir, na qual a linearidade e a lógica causal confinam a femme fatale ao controle patriarcal (Beckman, 2012, p. 28). Beckman argumenta que a fragmentação narrativa e o uso do tempo nos filmes de Lynch tornam essa figura mais complexa e difícil de definir. Isso significa que, enquanto o noir clássico limita a personagem, os filmes de Lynch oferecem maior espaço para seu desenvolvimento. Personagens como Dorothy Vallens em Blue Velvet e Rita em Mulholland Drive não se enquadram nos padrões tradicionais. Beckman descreve essa transformação como uma passagem da ironia para uma crise da própria narrativa (Beckman, 2012, p. 30).

Ao desenvolver esse argumento, Beckman recorre à pesquisa feminista que define historicamente a femme fatale como um problema epistemológico. No noir clássico, a femme fatale representa um mistério a ser explicado e neutralizado, como aponta Doane (1991). Place (1980) enfatiza sua ambivalência como figura simultaneamente forte e ameaçadora dentro de uma estrutura patriarcal. Embora Beckman reconheça esse legado, ela argumenta que o uso da imagem-tempopor Lynch desestabiliza os dispositivos narrativos que antes limitavam a femme fatale. Diferentemente do modelo clássico, no qual a sexualidade feminina resulta inevitavelmente em punição, as mulheres de Lynch resistem à interpretação final. Em Mulholland Drive, por exemplo, a fragmentação das personagens em identidades duplas impede que a femme fatale seja fixada em um único significado, deixando sua narrativa em aberto (Beckman, 2012, p. 36). Segundo a autora, isso altera de forma significativa a maneira como os arquétipos femininos operam no cinema.

Há, no entanto, razões importantes para questionar essa leitura mais otimista. Apesar de evitar resoluções narrativas diretas, as personagens femininas de Lynch são constantemente submetidas ao sofrimento e à violência ou reduzidas a objetos de fascínio e temor. Esses padrões sugerem uma continuidade inquietante: mesmo quando Beckman identifica um potencial progressista, teorias consolidadas continuam a expor estruturas patriarcais profundamente enraizadas. O conceito do olhar masculino de Mulvey (1975) e a análise de Williams (1991) sobre o corpo feminino como espetáculo revelam a persistência de perspectivas patriarcais. Clover (1992) também observa que mulheres em filmes de horror, incluindo os de Lynch, frequentemente acabam controladas ou punidas. O conceito de abjeção de Kristeva (1982) ajuda a compreender como as mulheres nos filmes de Lynch, especialmente em Blue Velvet, permanecem como espaços simultâneos de perturbação e atração voyeurística.

Embora Beckman apresente a ruptura narrativa como um possível espaço de transformação, a sexualização persistente e a objetificação das mulheres nos filmes de Lynch dificultam qualquer noção simples de progresso. A representação de Dorothy Vallens em Blue Velvet, por exemplo, continua ancorada em uma dinâmica de sedução e vitimização, reforçando a força contínua do olhar patriarcal. Essa tensão indica que a inovação formal, por si só, não garante empoderamento substantivo das personagens femininas, cujas representações continuam marcadas pela violência e pela objetificação.

Para sustentar sua tese, Beckman (2012, p. 28) adota uma metodologia baseada em análise textual detalhada de três filmes de Lynch: Blue Velvet (1986), Lost Highway (1997) e Mulholland Drive (2001). Essa abordagem permite examinar forma narrativa, motivos visuais e identidades femininas mutáveis, observando como a femme fatale opera de maneira distinta em cada obra. Suas análises enfatizam dispositivos narrativos e estilísticos como match cuts, sons diegéticos e sequências visuais fragmentadas. Em Lost Highway, por exemplo, um match cut conecta um espaço doméstico a uma paisagem desértica inquietante, desorientando o espectador e expressando a fluidez temporal central à narrativa de Lynch. De modo semelhante, em Mulholland Drive, a transição abrupta de um som diegético para não diegético altera a percepção do espectador sobre realidade e tempo, reforçando o argumento de Beckman sobre o potencial transformador dessas estruturas narrativas.

Ao destacar esses elementos, Beckman testa suas afirmações sobre o potencial transformador das estruturas narrativas de Lynch e seu impacto na representação da femme fatale. Como explica Hayward (2006), a análise detalhada é central nos estudos de cinema, pois permite conectar estilo cinematográfico e significado cultural. Stam, Burgoyne e Flitterman-Lewis (1992) também enfatizam que o trabalho textual é inseparável da teoria, já que o significado do filme é produzido por meio de códigos narrativos e de espectatorialidade. A metodologia de Beckman é convencional nos estudos de cinema, mas sua inovação está em combiná-la com um arcabouço filosófico deleuziano.

Ao mesmo tempo, Beckman fundamenta seu trabalho na crítica feminista do cinema. Ela reconhece as contribuições de Doane (1991), que define a femme fatale como um enigma epistemológico; Kaplan (1998), que a situa sob controle patriarcal; e Place (1980), que destaca seu apelo perigoso. Trabalhos mais recentes, como o de Grossman (2009), propõem repensar a femme fatale como figura contraditória e complexa, e não apenas como estereótipo. Beckman dialoga com essas perspectivas, mas busca avançar ao argumentar que as narrativas não lineares de Lynch permitem que a femme fatale escape da resolução narrativa, rompendo com leituras feministas clássicas do noir.

Central à análise de Beckman está a distinção deleuziana entre imagem-movimento, típica do cinema clássico de causa e efeito, e imagem-tempo, que surge quando essa lógica entra em colapso, criando imagens de duração, memória e descontinuidade. Rodowick (1997) e Buchanan (2008) demonstram como esse modelo reconfigura a história do cinema, enquanto Boundas (2007) destaca seu alcance filosófico. A inovação de Beckman consiste em aplicar essas categorias à questão de gênero, defendendo que a femme fatale não pode ser resolvida dentro das estruturas da imagem-tempo, adquirindo assim um “potencial progressista” (Beckman, 2012, p. 32).

Ainda assim, o corpo feminino permanece como espaço de trauma e espetáculo, leitura compatível com Williams (1991), que observa a erotização do sofrimento feminino no cinema. Ao privilegiar as categorias de Deleuze, Beckman pode acabar marginalizando críticas feministas que apontam a persistência da representação das mulheres como abjetas, excessivas ou punidas (Kristeva, 1982; Williams, 1991). O conceito de olhar masculino de Mulvey (1975) reforça essa crítica, sugerindo que o foco prolongado de Lynch no corpo feminino continua a reproduzir posições de olhar patriarcais. Assim, embora intelectualmente sofisticado, o arcabouço de Beckman pode minimizar a permanência dessas dinâmicas.

Estruturalmente, o artigo de Beckman é organizado para demonstrar a evolução de sua ideia ao longo da história do cinema. Ela começa analisando o film noir clássico, recorrendo a Doane (1991), Place (1980) e Kaplan (1998) para mostrar como a femme fatale era controlada pela narrativa patriarcal. Em seguida, aborda o neo-noir, no qual a ironia e a autoconsciência começam a questionar esses padrões, sem rompê-los totalmente. Por fim, analisa os filmes de Lynch em ordem cronológica, evidenciando como a femme fatale se torna cada vez mais instável e menos contida pelas regras narrativas tradicionais (Beckman, 2012, p. 35).

Embora essa estrutura cronológica ofereça clareza, ela corre o risco de ignorar recorrências temáticas centrais na obra de Lynch. Uma abordagem baseada em motivos como identidade fragmentada e lógica do sonho poderia oferecer uma compreensão mais refinada de sua relação com a femme fatale. Blue Velvet mantém coerência narrativa apesar da ironia; Lost Highway introduz uma fragmentação mais radical; Mulholland Drive dissolve identidade e cronologia quase por completo. Essa leitura temática destaca estratégias recorrentes e limita leituras exclusivamente feministas ou filosóficas, como observa Poe (2010).

Uma limitação do artigo é a sugestão implícita de um desenvolvimento linear na obra de Lynch, quando seus filmes são marcados por repetição e retorno constante a certos motivos. Dixon (1998) observa que Lynch reconfigura continuamente tipos de personagens e estratégias narrativas. A exclusão de Inland Empire (2006), seu filme mais experimental, também enfraquece a ideia de uma trajetória evolutiva clara. Organizar a análise por temas, e não por cronologia, poderia iluminar melhor essas ambiguidades persistentes.

Entre os pontos fortes do trabalho de Beckman está a aplicação inovadora da filosofia deleuziana a um arquétipo tradicionalmente analisado por lentes feministas ou psicanalíticas. Ao relacionar gênero e temporalidade cinematográfica, Beckman oferece uma perspectiva original. Rodowick (1997) e Buchanan (2008) destacam o potencial analítico de Deleuze, mas poucos autores o aplicam às questões de gênero. Nesse sentido, o artigo se distingue ao articular filosofia e crítica feminista.

Outro mérito é a capacidade de Beckman de sintetizar uma ampla gama de fontes acadêmicas, desde estudos feministas clássicos até abordagens revisionistas. Essa amplitude impede uma leitura simplista da femme fatale e a insere em um debate dinâmico. Sua atenção à crítica sobre Lynch, incluindo Nochimson (1997), demonstra consciência das controvérsias em torno do diretor.

Por fim, a clareza da escrita e a eficácia das análises fílmicas fortalecem o artigo. As leituras de Lost Highway e Mulholland Drive são especialmente convincentes ao demonstrar como identidades fragmentadas e lacunas temporais impedem o fechamento narrativo. Como argumenta Poe (2010), Mulholland Drive é particularmente propício a esse tipo de análise. Beckman consegue articular leituras textuais precisas com conceitos teóricos complexos, tornando seu trabalho acessível e rigoroso.

Apesar disso, a amplitude do escopo também é uma limitação. Ao abordar três filmes complexos em um único artigo, algumas análises permanecem superficiais. A discussão de Blue Velvet, por exemplo, não explora plenamente a violência e o trauma associados a Dorothy Vallens, tema central na crítica de Dixon (1998). Um foco mais restrito poderia permitir maior profundidade.

Outra fragilidade é o otimismo da autora quanto ao empoderamento da femme fatale. A fragmentação narrativa não elimina necessariamente a vitimização feminina. Kristeva (1982), Williams (1991) e Clover (1992) demonstram que a punição e a objetificação persistem, mesmo em narrativas inovadoras. Esses argumentos sugerem que Beckman talvez subestime a continuidade da violência patriarcal.

Por fim, a forte dependência do arcabouço deleuziano pode obscurecer questões fundamentais sobre representação feminina. Como alerta Grosz (1999), teorias excessivamente abstratas podem afastar-se da experiência corporal vivida. Shaviro (1993) lembra que o cinema de Lynch é profundamente sensorial, repleto de medo, desejo e violência, o que dificulta qualquer leitura puramente libertadora.

Essa tensão é evidente em Blue Velvet (1986), onde o corpo de Dorothy Vallens é simultaneamente trauma e espetáculo, confirmando a análise de Williams (1991) sobre a erotização do sofrimento feminino. Ao priorizar Deleuze, Beckman corre o risco de deslocar a crítica feminista que pretende reformular, deixando sua análise vulnerável à acusação de que a ruptura narrativa, por si só, não desfaz estruturas patriarcais.

Ainda assim, o arcabouço de Beckman abre caminhos para investigações futuras, especialmente em Inland Empire(2006), onde a fragmentação narrativa é levada ao extremo. Aplicar seu modelo a esse filme poderia aprofundar ou tensionar sua tese. Além disso, seu método poderia ser estendido a outros cineastas que trabalham com temporalidade não linear, como Wong Kar-wai, ou a outros arquétipos cinematográficos.

Em conclusão, “From Irony to Narrative Crisis” articula de forma instigante a crítica feminista com a filosofia de Deleuze, oferecendo uma releitura provocadora da femme fatale no cinema de David Lynch. Embora apresente limitações, o trabalho de Beckman contribui significativamente para o debate ao deslocar a discussão da misoginia para a complexidade formal e conceitual das representações femininas no cinema contemporâneo.

Bibliography

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Boundas, C. V. (2007) Gilles Deleuze: The Principle of Reason. London: Continuum.

Buchanan, I. (2008) Deleuze and Film. Edinburgh: Edinburgh University Press.

Clover, C. (1992) Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film. Princeton: Princeton University Press.

Deleuze, G. (1986) Cinema 1: The Movement-Image. Translated by H. Tomlinson and B. Habberjam. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Deleuze, G. (1989) Cinema 2: The Time-Image. Translated by H. Tomlinson and R. Galeta. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Dixon, W. V. (1998) The Films of David Lynch. New York: Twayne Publishers.

Doane, M. A. (1991) Femmes Fatales: Feminism, Film Theory, Psychoanalysis. New York: Routledge.

Grossman, J. (2009) Rethinking the Femme Fatale in Film Noir: Ready for Her Close-Up. Basingstoke: Palgrave Macmillan.

Grosz, E. (1999) Volatile Bodies: Toward a Corporeal Feminism. Bloomington: Indiana University Press.

Hayward, S. (2006) Cinema Studies: The Key Concepts. 3rd edn. London: Routledge.

Kaplan, E. A. (1998) Women in Film Noir. Rev. edn. London: BFI Publishing.

Kristeva, J. (1982) Powers of Horror: An Essay on Abjection. Translated by L. S. Roudiez. New York: Columbia University Press.

Nochimson, M. (1997) The Passion of David Lynch: The Films of a Filmmaker. Austin: University of Texas Press.

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Rodowick, D. N. (1997) Gilles Deleuze’s Time Machine. Durham, NC: Duke University Press.

Shaviro, S. (1993) The Cinematic Body. Minneapolis: University of Minnesota Press.

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Williams, L. (1991) ‘Hard Core: The Male Figure and the Female Body’. In: Williams, L. Hard Core: Power, Pleasure, and the ‘Frenzy of the Visible’. Berkeley: University of California Press, pp. 192–213.

Filmography

a

Lost Highway (1997) Directed by David Lynch. USA: October Films.

Mulholland Drive (2001) Directed by David Lynch. USA/France: Universal Pictures.

Inland Empire (2006) Directed by David Lynch. USA/Poland: Studio Canal.

Femme Fatale (2002) Directed by Brian De Palma. France/USA: Warner Bros.

The Last Seduction (1994) Directed by John Dahl. USA: October Films.

Chungking Express (1994) Directed by Wong Kar-wai. Hong Kong: Jet Tone Productions.

2046 (2004) Directed by Wong Kar-wai. Hong Kong: Jet Tone Productions.

 
 
 

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